Era muito jovem na época. Não me atrevia a sonhar com algo além de que meus brinquedos ganhassem vida e me fizessem companhia, permitindo-me praticar inocentes aspirações a Deus. Costumava passar minhas férias na cidade de Olinda, na casa de meus tios, onde nos reuníamos a maioria dos primos a exercer a divina e primitiva arte das brincadeiras infantis. Corríamos da morte, transitáva-mos entre o bom e o mal, permeáva-mos a insanidade. Em algumas noites, todos na casa se reuniam para assistir a filmes como “Sexta-feira treze” e “A noite dos mortos vivos”. Nessas noites, eu sempre dormia mais cedo por ser o caçula do grupo, o mais suscetível a pesadelos, e é claro, pelo fato de ter uma mãe super protetora. O desejo pela fantasia inalcançável acendeu sua fagulha.
Os “senhores do saber” decidiram, mais tarde, levar-nos ao cinema. “Vamos sair pra ver filme e comer”, pensei. E devo admitir que este segundo vislumbre me animou mais do que aquele. Sempre fui a típica criança obesa que idolatra sabores artificiais e corantes. Ao chegar-mos animados ao cinema “São Luís”, hoje desativado, compramos nossos ingressos e pipocas e chocolates e balas, e alegria e desvairia. Pusemos-nos à enorme fila que se alongava à imensidão na frente do cinema. O cansaço se abatia sobre as minhas frágeis pernas. Porém, finalmente, a fila começou a andar. E entramos.
Um local suntuoso, com aspecto respeitosamente antigo, de muito bom gosto. Adentramos a sala que nos esperava com seu cheiro e temperatura peculiares. Minha prima, Flávia, era quem me guiava por esse mundo novo que encontrava. Quando nos acomodamos e a luzes apagaram tive a certeza indubitável de visitar uma realidade totalmente diferente até então. O onírico e o palpável se fundiram naquela sala, aos meus olhos cegos. A enorme tela acendeu-se.
“Pocahontas” era o nome do filme. A estória de amor entre um soldado e uma belíssima índia. Dois mundos diferentes que se chocavam era o enredo. O enredo pelo qual eu passava naquele momento. A alucinação apaixonante pelo despertar de um novo mundo. Eu tinha encontrado aquela nova terra, aquela colônia, aquela câmara escura, aquela pocahontas que afastou a cegueira súbita de minha retina. Como diria Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Ando reparando até hoje.


1 comentários:
esse eu já tinha lido e dito que gostava. =)
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