quinta-feira, 6 de novembro de 2008

9 minutos mensais


Como ousas deflagrar-me com esse teu olhar dissimulado? Olhar que por tanto tempo esperei em vão, e agora na mais plena imensidão libertária – eu estou, tu estás? Estamos? – dissimulas e entregas. Olhos de mar pacífico-esmeralda que me sugam e me largam nu, nessa maré revolta, na qual os peixes só desovam ao teu desejo. Em meio a tantos corpos, copos, fumaças, cigarros, mãos, nucas, cabeças flutuantes eu encaro essa tua boca falante ao longe, a entreter os que te acompanham. Ah...Boca que exprime apenas o desejo, unicamente humano; E que me faz – como um anjo bobo – desesperadamente descer o degrau da consciência universal. Tu ri, rá rá rá, assim mesmo, p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e, enquanto observo teus pés cruzados a entreter-me como duas marionetes encenando “Romeu e Julieta”. Eles se agarram num encontro de lábios ardentes e se separam aos extremos, e se unem de novo até a morte - do que assiste - com a tua saída da sala da fantasia.

- Mas imagina menino, se eu tiver carregando uma vida aqui dentro. – me diz uma amiga que se encontra ao meu lado, com as mãos sobre a barriga.
- É...Já dá pra fazer teste? - Indago.
- Acho que não. É melhor esperar mais umas duas semanas.
- Essas duas semanas vão durar pra passar.
- É. - Ela responde.
- Duas semanas.

E entre nós se faz um pacto silencioso, enquanto as pessoas na sala se concentram em suas conversas num zunido cada vez mais ensurdece-dor. Dor que se aplaca em confusão ao sentar a minha frente, distante, os olhos que arbitrariamente me prendem e me libertam. Olham-me enquanto cego. Enxergo enquanto obnubilam-se. E nesse jogo anárquico os relógios trabalham, as fumaças que antes aderiram à dança do ventre agora parecem ter se esgotado, e os motores – sejam dos automóveis, sejam os cardíacos – movimentam-se.
Despedidas. Mãos, peitos, pêlos, pernas, cheiros. Desejos não consumidos num Bis später, num À bientôt . Como ousas deflagrar-me com esse teu olhar dissimulado, animal desgarrado, que quero tanto ao meu lado!? A criança nasceu.

sábado, 11 de outubro de 2008

Piaf

E a dama de vermelho pensou, ao mesmo tempo que repolsava suas pernas, uma sobre a outra - um cigarro na mão esquerda, um mexer de dedos na mão direita, um batom escuro na boca amarga:

- A diferença entre eles, é que um gosta de piaf, o outro não!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Qual é a sua?

Mas desde que, há duas semanas, uma cigana desvendou as fracas linhas das palmas de minha mão, pouco sossego encontro até em meu próprio sossego: dois amores, ela apontou, um já passado, e com amargura localizei na memória aquele sôfrego Estudante, e outro em breve por chegar. Desde então, me desconheço. Abreviaram-se-me as idas ao banheiro para molhar os pulsos e os lóbulos das orelhas, animando a circulação que se me estanca nas veias, por vezes olvido a torneira aberta e surpreendo-me a odiar minhas próprias tranças, as manchas roxas sob os olhos e tudo que me torna assim, fugaz. Mal posso conter um susto investigando o porte de cada homem que se aproxima, em cada esquina que dobro, em cada ônibus que tomo para ir e vir, sinto que busco prometido e me detesto por essa inquietação febril, pelo amor que desconheço e mal consigo supor, tão parca é minha vida de memórias ou medidas...Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam. Ninguém suspeita de meu segredo, caminho severa pelas calçadas, olhos baixos para que minha sede não transpareça: ah sou tão morena e magrinha que ninguém me adivinha assim como tenho andado - castamente cinzelada no topo deste morro onde os ventos não cessam jamais de uivar, tendo entre as mãos, como quem segura lírios maduros dos campos, uma espera tão reluzente que já é certeza.

(Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados)

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"Pra Rua me Levar"
(Ana Carolina/ Totonho Villeroy)

Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você


É... mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você...

Qual o seu tipo? Ou será impossível dissocia-los?
Make your Choise!
Inté!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Interpretações Astrológicas


- Vó, a lua é o quê?

Tricotando a vó responde:

- É a bola de Deus, meu filho.

- A bola? de jogar?

- É. Todo dia bem de manhãzinha, antes de todo mundo acordar, ele chuta ela que tá sempre lá, paradinha no quintal dele.

- Chuta pra onde?

- Chuta pro nada. Ele chuta tão forte, tão forte, que ela vai parar no outro lado do mundo. Todo dia, a bola volta pro quintal dele e ele chuta, mesmo sem saber quem chuta de volta. Porque ela sempre volta...sempre volta.

O menino adormece. Na noite seguinte, ele aproxima-se da avó novamente, que está a tricotar no terraço.

- Ô vó! Por que a senhora e o vôvô nunca se falam? Vocês tão de mal?

A avó continua a tricotar.

- Sabe a lua, menino?

- A bola de jogar?

Ela ri.

- Sim, a bola de jogar; é que Deus quando chuta ela, é pra ela ir ficar pertinho do sol, que ta lá longe, lá do outro lado do mundo. Mas parece que tem sempre alguém que chuta o sol pra cá na mesma horinha.

- E o que é que tem?

- Tem que o sol e a lua nunca se encontram né, menino; é um fardo arretado de dois.

- A culpa é do diabo vó?

- Meu filho...eu não sei se é o Diabo que joga com Deus não. Eu só sei é que mesmo laaaá de longe, o sol continua a me aquecer a cada beijo no rosto, a cada beijo de amanhecer.

E o mar vai dormir, sabido que o claro e o escuro é apenas o desencontro fatídico de dois amantes.

domingo, 13 de julho de 2008

Fumo o apocalipse

Anjos subalternos,

À terra;

Paira revolto

O ônix sagrado

Som estático,

Corda tremulante.

Levado, o senhorio centeio

Rabisca a primavera

Em meu olhar.

- O quê tu qué cume nu almoçu?!


quinta-feira, 10 de julho de 2008

29-01-2008


As tranças de Alquides

Enlaçam-me os seios

Na boca da noite.


BETH VALENÇA


Sonhadora dourada

Uniformemente desvairada

Candeia, Candeia




BETH VALENÇA



Maria, Bethânia, Alquides de Carvalho.

Ônibus lunar

Voltará aos meus seios






BETH VALENÇA

quarta-feira, 25 de junho de 2008

LOUVAÇÃO

Texto de 2005

Uma ensolarada tarde de sábado. Um casal de namorados anda por uma avenida, avô e neto estão sentados ao sol e duas irmãs estacionam o carro. É mais uma tarde de peregrinação. Milhares de indivíduos encaminham-se a terra “santa”. Regrados a raios de energia e ondas marítimas que dançam nas gargantas estremecidas, eles acompanham a procissão. Milhares de almas marcham pelo que acreditam. Como formigas ao açucareiro, eles ao templo. Templo onde cultuam a arte redonda, das cabeças redondas, da bola às vezes não tão redonda, mas sempre bola. Local de desejo e fé, o templo do futebol.

Assim que todos se acomodam em espera da sangrenta luta de gladiadores, nossos ouvidos, antes tomados pelo som do chacoalhar de uma redondeza presa no redondo, ouvem as trombetas anunciarem o início do espetáculo.

O imperador fez o sinal e a batalha começa. Minutos de incansável luta se passam. E a dicotomia se revela: Em um templo onde os monges vestem meiões a fim de louvar o Deus redondo, o sangue do oponente é derramado e a oração declamada com maior freqüência é o tradicional “filho-da-puta”. As freiras falam “filho-da-puta”. Os coroinhas gritam com a força de sua jovialidade, “filho-da-puta”. Ah, que vontade de gritar “filho-da-puta”!

E os quadrados do horizonte balançam. Todos gritam e pulam banhados pelas loiras faíscas de alegria. E dá-se início a prece conjunta. Pouco tempo depois, o desafiante permanece caído, com as vestes rasgadas e uma lança cravada em seu peito, por onde sua vida escorre mansamente.

Todos suspiram, riem e caminham em direção à saída. Cada um pensando no restante de seu dia, em como irão aproveitá-lo. Um casal de namorados que encontrarão amigos no cinema. Avô e neto que irão para casa jantar e ver, como em todos os sábados, o seu programa televisivo favorito. E as duas irmãs que se banharão e dançarão durante toda a noite.

O que os une é que todos voltarão em um outro dia ao templo-coliseu-soberba-casa-do-espetáculo com o mesmo objetivo: Louvar a arte futebolística. A arte essencialmente brasileira.