
- Mas imagina menino, se eu tiver carregando uma vida aqui dentro. – me diz uma amiga que se encontra ao meu lado, com as mãos sobre a barriga.
- É...Já dá pra fazer teste? - Indago.
- Acho que não. É melhor esperar mais umas duas semanas.
- Essas duas semanas vão durar pra passar.
- É. - Ela responde.
- Duas semanas.
E entre nós se faz um pacto silencioso, enquanto as pessoas na sala se concentram em suas conversas num zunido cada vez mais ensurdece-dor. Dor que se aplaca em confusão ao sentar a minha frente, distante, os olhos que arbitrariamente me prendem e me libertam. Olham-me enquanto cego. Enxergo enquanto obnubilam-se. E nesse jogo anárquico os relógios trabalham, as fumaças que antes aderiram à dança do ventre agora parecem ter se esgotado, e os motores – sejam dos automóveis, sejam os cardíacos – movimentam-se.
Despedidas. Mãos, peitos, pêlos, pernas, cheiros. Desejos não consumidos num Bis später, num À bientôt . Como ousas deflagrar-me com esse teu olhar dissimulado, animal desgarrado, que quero tanto ao meu lado!? A criança nasceu.



